As eleições autárquicas, realizadas a 12 de outubro, deixaram, em Aguiar da Beira, um sinal claro e inequívoco: o eleitorado confia, mas exige. A vitória do Movimento Independente Unidos Pela Nossa Terra (MI-UPNT) – no poder desde 2013 – representou uma renovação de confiança concedida pelo eleitorado, mas não um cheque em branco. Os cidadãos voltaram a escolher o mesmo projeto para liderar o município, mas com uma margem mais curta e um mapa político mais equilibrado. O recado é simples: os eleitores escolheram a continuidade, mas querem mais diálogo, mais transparência, mais trabalho e mais desenvolvimento.
A situação é idêntica à que resultou das autárquicas de 2017, num contexto igualmente de recandidatura do Movimento Independente (então liderado por Joaquim Bonifácio e agora por Virgílio Cunha) para um segundo mandato. Os independentes mantiveram a liderança, mas com menor diferença de votos em termos absolutos face ao principal partido opositor: PSD – Partido Social Democrata (Fernando Pires era o cabeça de lista e nas últimas foi António José Gomes). Tanto naquele ato eleitoral como neste, os independentes conquistaram a maioria na câmara (mandatos: 3/2), na assembleia municipal (deputados: 8/7) e nas assembleias de freguesia (juntas: 6/4).
A paisagem política do município revelou-se altamente competitiva, marcada por uma clara divisão geográfica do voto entre as duas principais forças: MI-UPNT e PSD. Embora os independentes tenham alcançado uma vitória global, a análise detalhada por freguesia demonstra um equilíbrio de forças mais complexo e dinâmico.
Desta vez, em relação às eleições de há quatro anos, o PSD conseguiu reequilibrar o espaço político e o mapa eleitoral. Recuperou de duas para quatro juntas de freguesia: conquistou ao MI-UPNT a Freguesia de Pinheiro, a União de Freguesias (UF) de Souto e Valverde e a UF de Aguiar da Beira e Coruche (a mais populosa e sede de vila). Para além destas, manteve Pena Verde, a segunda maior. Já o MI-UPNT segurou Carapito, Cortiçada, Dornelas, Eirado e a UF de Sequeiros e Gradiz, e ganhou Forninhos ao PSD.
Na assembleia municipal, os sociais democratas obtiveram mais 173 votos – subindo de 40,47% para 44,88% da votação -, recuperando um deputado, enquanto os independentes perderam 212, descendo de 52,47% para 47,75%.
A tendência repetiu-se na câmara municipal, onde o PSD cresceu 139 votos, subindo de 40,04% para 43,63%, enquanto o MI-UPNT perdeu 104 votos. A diferença entre ambos reduziu-se para apenas 267 votos (em 2021, era de 510).
A leitura dos resultados revela uma vitória que mantém o poder, mas sinaliza algum desgaste. O eleitorado não rejeitou o projeto independente, apenas lembrou que quer equilíbrio, transparência e resultados tangíveis, rejeitando políticas eleitoralistas e a arrogância da vitória fácil.
Outra das ilações que se podem retirar é que não basta concentrar a centralidade do campo de batalha nas duas maiores freguesias do concelho. A UF de Aguiar da Beira e Coruche é, inequivocamente, o epicentro da política municipal, e Pena Verde surge logo a seguir. Vencer no concelho passa, impreterivelmente, por trabalhar bem estas freguesias, mas não se podem descurar as restantes. Todas contam. E, por um voto, se ganha, por um voto, se perde – como se viu nestas eleições.
Para o Movimento Independente, a questão crítica é se as perdas no centro urbano – a UF de Aguiar da Beira – (mas também em Pena Verde) representa um revés temporário ou um realinhamento permanente do eleitorado. Para o PSD, o desafio é provar que o seu crescimento é sustentável, o que exige uma estratégia dupla: consolidar a nova base urbana e, simultaneamente, diagnosticar e neutralizar os fatores locais que levaram a perdas nos bastiões independentes, como Eirado, Dornelas e a UF Sequeiros e Gradiz. A confiança concedida ao MI-UPNT vem acompanhada de um aviso democrático: o poder local só é legítimo enquanto se mantiver próximo das pessoas, transparente nas decisões e responsável pelos resultados. Aguiar da Beira mostrou que sabe votar – distingue funções e calibra o voto conforme o órgão – e que continuará a fazê-lo com exigência e consciência. O futuro do concelho dependerá, a partir de agora, da capacidade de quem governa ouvir, explicar e cumprir. Porque, em democracia, a confiança renova-se todos os dias – e o voto nunca é um cheque em branco.












