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Covid-19: “O que custa muito é o distanciamento dos meus filhos”

Aguiarense, profissional de saúde em França, contraiu vírus Covid-19 e relata como trava batalha contra doença infeciosa. Um testemunho emocionante publicado na edição impressa de 11 de abril

“Sou fisioterapeuta há 16 anos e vivo em Paris há sete. Na minha vida profissional vi muitas patologias e vírus, mas nada me preparava realmente para isto. Trabalhei alguns anos em Unidades de Cuidados Intensivos, em Paris, mas, neste momento, exerço em gabinete liberal e lar de idosos.

Quando a epidemia se declarou em França comecei a aplicar com os meus pacientes as regras de higiene e segurança que aplicava nos cuidados intensivos, mas o material era escasso, principalmente as máscaras. Em casa tentei proteger os meus três filhos, ensinando-lhes os «gestos barreira», e da minha parte, utilizava máscara, fazia a devida desinfeção ao chegar e o tinha distanciamento recomendado. Já depois do confinamento da população, fui requisitada e continuei a prestar apoio aos utentes mais frágeis, alguns com Covid-19. Os meus filhos foram acolhidos em escolas referenciadas, por eu ser profissional de saúde requisitada.

Infelizmente, o contacto com pacientes infetados com o novo coronavírus, não devidamente identificados, levou-me a contrair a doença infeciosa. No fim de semana de 21 de março tive uma ligeira dor de garganta e um pequeno pico de febre, à noite. Senti-me muito cansada e passadas 24 horas deixei de ter olfato e paladar, logo a seguir tosse seca e falta de ar. Telefonei ao meu médico de família, que me recebeu rapidamente e mandou fazer uma TAC com urgência. Fiz a TAC numa clínica privada nessa mesma tarde e foi me diagnosticada pneumopatia característica da Covid-19.

Fiquei em isolamento em casa, os meus filhos em quarentena e os meus pais também. Já estou há mais de 10 dias em isolamento com episódios de dispneia importante, dores no peito, muito cansaço, mas pouca febre. Consegui escapar ao internamento em grande parte graças a uma boa monitorização pelo meu médico. Os meus conhecimentos nos procedimentos na área respiratória também me ajudaram a manter a calma. O tratamento para casos como o meu passam por antibiótico profilático, paracetamol e oxigénio em casos de períodos de dispneia aguda.

Ainda tusso, sinto alguma falta de ar e muito cansaço, ou seja, ainda não estou curada.

O que custa muito é o distanciamento dos meus filhos, mas, sei que é para a sua proteção. Eles seguem com algumas dificuldades de ordem logística a escola virtual e eu não consigo acompanhá-los como gostava. O que lhes custa a eles é não me poderem abraçar e também não puderem sair à rua. Mas, o mais importante para mim é eles escaparem a este vírus e, felizmente, por enquanto, não apresentam sintomas.

Aqui, em França já ultrapassamos os 64.000 casos confirmados e 6.507 mortos. E, ainda não chegamos ao pico. As ruas de Paris estão vazias, é necessário um atestado justificativo com data e hora cada vez que se sai à rua para não pagar coima, em caso de controle. Ainda não há data para o regresso às escolas. A maioria dos comércios estão fechados, exceto os bens de primeira necessidade e alguns serviços públicos essenciais. Os trabalhadores, aqueles que podem, fazem teletrabalho, muitos empregados foram colocados no chamado desemprego parcial.

Os gabinetes particulares de medicina dentária, fisioterapia e outros gabinetes paramédicos, foram encerrados, sendo assegurados, unicamente, os cuidados de saúde ditos inadiáveis, ou vitais, ao domicílio, ou em estruturas de acolhimento, como lares.

Em relação às medidas de contenção, na minha opinião, o confinamento da população francesa foi tardio. A gestão de material de proteção para os profissionais de saúde foi desastrosa, permitiu o alastramento da epidemia e o contágio dos profissionais, que agora fazem falta nos hospitais e lares de terceira idade. Mandaram-nos para a guerra sem armas! As nossas únicas armas foram a vocação, a compaixão pelos doentes e a nossa consciência profissional.  A comunicação oficial inicial, acerca da propagação do vírus, foi tendenciosa e enganou a população francesa. Menosprezaram o perigo. Isto não era uma mera gripe!

Os profissionais de saúde nos hospitais e nos lares estão exaustos, trabalham horas sem conta e muitos já nem regressam a casa, ficando a dormir no hospital, em apartamentos emprestados perto dos hospitais ou hotéis, para estarem mais disponíveis e evitar o contágio a família. Foi criada uma bolsa de profissionais de saúde voluntários para os ajudar e já existia a chamada reserva territorial sanitária, da qual faço parte. Já fui chamada a prestar apoio aos meus colegas nos cuidados intensivos num hospital universitário parisiense, mas ainda tenho de manter o isolamento. Entristece-me saber que não posso ajudar, sendo profissional diferenciada na área. Somos todos solidários entre colegas e a população francesa tem se mostrado unida nesta luta, apoiando o pessoal dito de primeira linha. Arrepio-me todos os dias, às 20 horas, ao ouvir as salvas de palmas às janelas.

Esta pandemia permitiu aos franceses, e diria ao mundo, rever as suas prioridades. Este vírus distanciou-nos, mas uniu-nos. A ciência deu um pulo e foram alcançados em semanas resultados que em tempos normais demorariam anos. Juntos venceremos. Vai ficar tudo bem.

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