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Covid-19: “Não posso parar e perder o pouco que tenho”

Carlos Almeida é dos vários motoristas de pesados do nosso concelho e do país que enfrenta de frente o perigo desta pandemia, atravessando fronteiras na europa para transportar produtos, muitas vezes, não prioritários. O jovem de 33 anos relatou ao nosso jornal, na semana em que foi decretado o estado de emergência nacional, a falta de condições de trabalho em plena crise de saúde pública. Um testemunho que poderá ler agora e também na edição impressa

“Trabalhar neste período não tem sido nada fácil, pois, as áreas de serviço na sua maioria estão fechadas, logo não tens acesso a nenhum restaurante, nem a uma casa de banho. Os banhos estão fechados. Isto, mais em Espanha, pois, por cá a maioria das áreas de serviço não dispõem desse tipo de serviço em qualquer altura do ano. As empresas onde efetuas cargas e descargas ainda não estão devidamente protegidas e não oferecem as melhores condições aos motoristas, para prevenir a infeção pelo vírus. Por vezes, em armazéns de grandes superfícies comerciais ainda é o motorista que faz a carga e descarga, andado à vontade dentro do armazém sem ser necessário usar máscara nem luvas.

Nas fronteiras também não há qualquer controlo ou rastreio aos motoristas. Nada! Apenas a polícia regista a matrícula e manda seguir viagem. Não querem saber se vieste ou não de um país de risco, nem o que transportas, ou se estás bem ou não. Desde que o governo decretou o estado de emergência que não fui abordado por um agente da autoridade de saúde ou do quer que seja. Basta reparar no exemplo do camionista que ligou para o SNS 24 a informar que estava com sintomas, isto na zona sul do país, e esteve mais de 10 horas fechado dentro do camião à espera que alguém o fosse buscar para um hospital, afim de lhe fazerem os devidos testes.

Nunca me foi indicado pelas forças de segurança, autoridades de saúde ou do setor profissional, a obrigatoriedade de ficar em isolamento. Parece que é uma regra só para quem passa na fronteira com um veículo ligeiro. Se calhar, apenas eles poderão ser portadores do vírus, sendo os motoristas de pesados imunes, não sei… a vacina “manter a economia” afasta qualquer vírus! Qualquer pessoa ao entrar em território nacional deveria ser controlada, com os devidos testes, e ordenada a ficar em casa de quarentena. Neste cenário de pandemia e com fortes possibilidades de contágio, não faz sentido haver transportes de mercadorias sem ser de bens de 1ª necessidade.

Atualmente, para se circular em Espanha, é necessário acompanhar a carga com um certificado acreditado de necessidade de transporte, ou seja, na teoria apenas podem circular mercadorias essências. O que se pode constatar na realidade é que tudo é essencial…

O que é mais triste no meio disto tudo é saberes que és essencial, mas ao mesmo tempo descartável. O governo deveria fechar tudo e obrigar todos ao confinamento, de forma a ver quem está ou não infetado, para não subcarregar o SNS e conter a propagação do vírus. Por duas ou três semanas ninguém vai morrer à fome. É preciso abastecer Portugal? Simples, requisição nacional, testam os motoristas, dois num camião, com devidas condições de segurança e higiene, sem horários e com ordens do estado para poderem circular à vontade, e em dois ou três dias vão aonde tiverem que ir e trazem tudo o que precisamos para sobrevir. Agora, estar metade da população em casa, enquanto andam outros tantos na rua a trabalhar, não faz sentido.

Iremos andar meses e meses nesta roda viva. Será que os que estão em quarentena poderão sair de casa descansados e andarem ao pé de mim e outros como eu que continuam a atravessar as fronteiras rumo a países com muitos mais infetados? Não!

Situações drásticas precisam de medidas drásticas… e assim não vamos lá. É a minha opinião, que nada percebe disto, mas que passa a vida a ouvir falar mais em economia do que em saúde.

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